“Inovações” Educacionais

Em diversos campos de atuação uma inovação tecnológica só é aceita quando estudos científicos de qualidade atestam seus benefícios em relação àquilo que existia antes. A ciência médica, por exemplo, não muda seus protocolos ou adota novas intervenções até que exista um acúmulo suficiente de evidências para justificar a mudança.

O mesmo não ocorre na educação. Na ânsia de aumentar seu impacto sobre os alunos, ou mesmo na simples busca pela diferenciação em um mercado altamente competitivo, professores e escolas são ágeis em aceitar qualquer nova metodologia, tecnologia ou prática educacional que se proponha. A todo momento emerge algo que vai “mudar a educação” ou “reinventar as nossas escolas e faculdades”.

Uma visita a praticamente qualquer evento ou feira educacional atesta esse frenesi. Em cada palestra, em cada produto, a promessa é basicamente a mesma: isto vai revolucionar o ensino. O “isto” assume muitos nomes e formas: metodologias ativas, sala de aula invertida, PBL etc., etc. Ao contrário do que ocorre em outras áreas, o critério de aceitação das novidades é simples: basta que, intuitivamente, a coisa faça sentido.

Tome o caso da PBL, ou problem-based learning, por exemplo. Trata-se de uma metodologia aclamada no ensino superior, na qual um grupo de alunos é exposto a uma situação-problema onde, com o mínimo possível de direcionamento por parte do professor, deve encontrar uma solução. A ideia é que isso permite que os alunos desenvolvam as competências técnicas que utilizarão para resolver os desafios reais que encontrarão ao longo de sua vida profissional. Por isso, a PBL é supostamente melhor do que uma aula expositiva, que se baseia simplesmente na apresentação de conteúdos. Faz sentido, certo?

O grande problema é que nem sempre o que parece fazer sentido realmente faz sentido – para diferenciar as duas coisas existem as pesquisas. E, ao contrário do que se pensa, existe um enorme volume de evidências indicando que os efeitos prometidos pela PBL só emergem em situações muito específicas que envolvem, via de regra, alunos que já estão amplamente familiarizados com os fundamentos da disciplina em questão. Em vários outros contextos, o PBL pode ser nocivo, fazendo com que os estudantes aprendam menos do que os alunos que são instruídos pelos métodos tradicionais, com aulas estruturadas e ênfase na transmissão de conteúdo (Kirschner, Sweller & Clark, 2006).

A lição é simples: na educação não existe bala de prata, e a construção de uma proposta de qualidade passa obrigatoriamente por um arranjo de diferentes estratégias, cada qual ajustada ao seu contexto, sempre com base no caminho apontado pelas evidências.

Ou, como bem colocou H. L. Mencken: para todo problema humano existe uma solução simples, que não funciona.

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Kirschner, P. A., Sweller, J., & Clark, R. E. (2006). Why minimal guidance during instruction does not work: an analysis of the failure of constructivist, discovery, problem-based, experiential, and inquiry-based teaching. Educational psychologist, 41(2), 75-86.